Branca de Neve
Não é a primeira vez que a Disney tenta revisitar seus clássicos animados por meio de remakes live-action, e o mais recente Branca de Neve, dirigido por Marc Webb, segue essa tendência. No entanto, ao tentar reviver a magia do clássico de 1937, o filme se perde na tentativa de homenagear a história, afastando-se de sua essência e falhando em capturar o encanto que a tornou tão atemporal.
Rachel Zegler, como Branca de Neve, se destaca ao interpretar uma princesa que, em vez de buscar apenas o amor verdadeiro, deseja se tornar a líder que seu pai acreditava que ela poderia ser. Embora essa abordagem tenha o potencial de despertar o interesse do público, o roteiro não a desenvolve de maneira consistente. Em vez de explorar a profundidade da personagem, o filme a coloca em situações previsíveis, transformando-a em um símbolo vazio de “empoderamento”, sem gerar qualquer envolvimento emocional real no espectador.
A tentativa de modernizar a história, sem compreender os elementos que a tornaram icônica ao longo de 88 anos, resulta em um filme que mais parece um truque digitalizado sem autenticidade. A ideia de uma Branca de Neve que não busca um amor romântico, mas sim seu próprio propósito, poderia ser interessante, mas é explorada de forma rasa, sem o embasamento necessário para criar uma conexão verdadeira com o público.
Gal Gadot, como a Rainha Má, tenta representar uma figura fatal, mas sua performance falha em capturar a malícia, o poder e o terror que fizeram a vilã original tão inesquecível. Sua interpretação não transmite a ameaça palpável que a personagem deveria inspirar, resultando em uma vilã sem impacto. Ao invés de provocar arrepios, ela se torna insípida, incapaz de assustar até o público mais jovem, que deveria sentir a tensão de sua presença ameaçadora.
Os sete anões, representados em CGI, exemplificam como a abundância de recursos tecnológicos pode, por vezes, afastar os personagens de sua essência. Embora a sofisticação digital seja evidente, faltou um toque de realismo que desse mais vida aos anões, que já estão gravados na memória dos espectadores por sua simplicidade e personalidade única. Em vez de uma reinterpretação rica e autêntica, os anões tornam-se figuras artificiais, desprovidas da magia que encantou gerações.
As canções originais do clássico de 1937, que aparecem no filme, são bem trabalhadas e conseguem manter a magia que as tornaram inesquecíveis. No entanto, as novas músicas, com sua inspiração "broadwayana", tornam-se um verdadeiro fardo para a narrativa. Embora tentem adicionar algo moderno, elas acabam tornando a experiência cansativa a cada nova melodia, sem proporcionar o impacto esperado de um grande musical. A produção, que deveria ser uma celebração sonora, falha em cativar o público, com números musicais que se arrastam e não conseguem gerar o mesmo encantamento das canções clássicas.
O maior erro de Branca de Neve não está no elenco ou na direção, mas na falta de profundidade. O filme tenta se apresentar como uma evolução necessária, mas, no final das contas, entrega um conto sem brilho e sem essência. Ao invés de uma releitura que preserve e respeite a autenticidade da história original, temos um remake que se perde nas intenções corporativas de agradar a um público moderno, esquecendo-se do que realmente fez o clássico tão tocante e atemporal.
Branca de Neve poderia ter sido uma das grandes oportunidades da Disney para resgatar a magia atemporal do clássico e trazê-la de volta ao presente, sem sacrificar a essência que a tornou tão amada. Mas, em vez disso, temos uma decepção monumental: um conto sem brilho, cuja promessa de grandeza se desintegra diante de uma produção que não soube honrar sua própria história. A verdadeira magia de Branca de Neve sempre esteve em sua simplicidade e na força da emoção genuína — e o que esse remake entrega é um simulacro vazio, onde a alma do original se dissolve em um espetáculo que nunca chega a atingir a grandiosidade que todos esperavam.
Por Mauro Senna
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